quinta-feira, 23 de abril de 2009

A escolha da forma

A escolha da forma

Prof. Elcio Sartori

Desde os tempos imemoriáveis nos relacionamos com as formas. Do ventre pré-natal ao nascimento, uma criança inicia sua percepção tátil ou visual das formas do seu entorno e isto continua ao longo dos anos em que viver. Primeiro o ventre da mãe, oval, silencioso, aconchegante (a bolsa aquosa), depois o seio materno. Mais adiante o contato com os tecidos das roupas, do berço, da banheira, das mãos da mãe que promove os primeiros banhos, a água aquecida, o cheiro do sabonete, as fraldas. Logo em seguida entram em cena os brinquedos, por vezes uma chupeta na boca. Inicia-se a visão do entorno com seu mobiliário, seus objetos e o mundo exterior à moradia: coisas orgânicas e industrializadas.

Advertência!

A abordagem desse artigo é para uma leitura inicial das formas básicas. É um pequeno ensaio para introduzir à compreensão dos significados e das associações que atribuímos às formas. A arqueologia, nesse sentido, teria sua contribuição para confirmar que o homem já nasce com um senso geométrico. Prova disso são os resultados de pesquisas com escavações que têm revelado (nas mais variadas culturas) a presença das formas primárias desenhadas em várias regiões do planeta de modo semelhante, quer seja em objetos, construções, adornos ou mesmo em indumentária, pinturas ou na própria pele.

Percepção – Percepto - Conhecimento

Assim que nascemos (ou mesmo antes) começamos a experimentar o mundo, a se machucar, a perceber que as arestas podem ferir, que as formas arredondadas são mais aconchegantes ou “amigáveis”, a olhar através de janelas retangulares, a subir em árvores etc. Experimenta-se as primeiras quedas, os primeiros ferimentos com a experiência da dor associada à visualidade de objetos que nos atingem e o vermelho do sangue que se esvai. Ganhamos presentes em belas caixas, começamos a visualizar a ordenação em oposição ao caos do mundo e iniciamos uma separação por categorias. Iniciamos uma leitura visual do mundo que nos rodeia.

Nesse contexto de crescimento, a percepção vai construindo repertórios e atribuindo significados. Um repertório de visualidades vai fazendo parte de nossa biografia, associado a medos, hábitos ou crenças. Designers, publicitários, artistas plásticos e todo aquele que lida com visualidade, com formas e imagens como matéria prima de seus trabalhos, necessitam ter conhecimento e fundamento para a escolha das formas ou formatos, para o sucesso na construção de seus projetos.

Não abordarei aqui questões técnicas como aproveitamento de papel conforme seus cortes nem sobre facas especiais nas Artes Gráficas. Vamos analisar a essência, o desenho das formas como informação silenciosa. Algumas Teorias Da Gestalt (escola de Psicologia Experimental que surgiu na primeira década do século XX com estudos desenvolvidos por estudiosos da Universidade de Frankfurt), passando pela Semiótica (como teoria geral dos sistemas de signos), cada uma dessas ciências têm deixado sua colaboração para compreendermos como agem na percepção humana as formas.

Reconhecer significados na linguagem das formas requer uma busca ao início de nossa existência, no universo primitivo de nossa raça. O que hoje percebemos com certeza foi registrado há muito em nossa cosmogonia ou em nosso código genético.

Conhecer os princípios que regem os significados atribuídos ou impregnados nas formas pode nos auxiliar a tirar melhor proveito na escolha do formato mais apropriado a um folder, a uma embalagem, um livro, uma marca e assim por diante. O objeto impresso, acabado, refilado em gráfica, agrega valor e expressividade premeditada. A embalagem, o totem de comunicação visual, um brinquedo, um adorno de decoração, um móvel, agregam valores a partir da escolha de suas formas. A forma é um estímulo concreto que detona associações mentais a partir da percepção visual e tátil.Observando a Natureza
Assim como tudo que germina na natureza tem como manifestação mais visível seu geotropismo positivo (crescimento das plantas acima da superfície) e busca das alturas, assim como tudo o que é líquido busca caminhos segundo espaços inclinados e desloca-se caindo para planos descendentes, de escoamento, por entre rochas, terra, moldando-se durante o percurso; assim como tudo o que possui uma ponta imita os dedos indicando algo, a lança, a seta, a flecha; assim como tudo o que não possui arestas nos parece maleável ou confortável ou agradável ao tato; assim o olhar remete ao cérebro as sensações visuais que interpreta ou atribui significado o tempo todo em que estamos conscientes.

Na busca do entendimento da linguagem das formas, separamos as principais para uma aplicação pragmática, resultante de alguns estudos em Semiótica e dos fundamentos da Gestalt.

Advirto que, com este artigo, estamos longe de esgotar o assunto, que é fascinante e possui uma rica bibliografia. A intenção aqui é fornecer um breve glossário de associações para uma consulta rápida. A idéia aqui é fornecer um texto que sirva de base para adequar à conceituação do seu projeto. Apesar do tom despretensioso, os resultados aqui apresentados resumem um pouco da minha experiência no design, na publicidade e nos estudos e experiências no ensino.

De tão fundamental que é a questão da forma, os conceitos a seguir podem ser aplicados além do design gráfico ou da publicidade e avançar para outras áreas de estudos como o do design de interiores, das embalagens, da escultura, da cenografia, da fotografia, da pintura, da arquitetura e assim por diante.

O Quadrado – Cartesiano e Racional

Esta forma rica em arestas, pode ser associada ao domínio da racionalidade,
da impessoalidade, da neutralidade. Se associada a movimento, seria o oposto,
ou seja, a imobilidade.

O quadrado agrega significados como firmeza, solidez, sobriedade, repouso. A igualdade dos lados representa a anulação de forças expressivas. É comedimento. É o mistério da igualdade onde tudo pode acontecer. O quadrado é cartesiano, imparcial. Indica precisão, frieza, cálculo, perfeição matemática. Pode ser o símbolo perfeito para tudo aquilo que é fabricado, portanto, que não foi gerado pela natureza, ou seja, artificial.

A maioria das pessoas associa a forma quadrada a um símbolo primitivo de objeto, da propriedade ou da proteção, da casa, do esconderijo ou da abertura, ou janela. É a síntese absoluta do espaço fechado, do terreno delimitado, do cárcere, do princípio gerador do cubo. É uma forma neutra, porém pode ser associada à masculinidade. É a forma que representa a solidez material ou a própria materialidade.

Ao girar um quadrado e apoiando-o sobre uma das arestas, ele torna-se um incômodo, pela instabilidade que adquire, nessa posição. Ganha um aspecto vulnerável como uma busca a ascender ou a um estranho equilíbrio que pode ser rompido a qualquer momento. Torna-se perturbadora esta condição, gerando estranhamento. Os quadrados parecem que foram feitos para ficar apoiados sobre um dos seus lados. Daí a sua aplicação na sinalização de advertência.

Na pré-história o quadrado representava a superfície da Terra ou os pontos cardeais. Assim que o quadrado ganha horizontalidade ou verticalidade, transformando-se em retângulo, se perde o caráter de neutralidade.

Hoje sabemos que formas sem fechamentos são interpretadas com conceitos abstratos, enquanto formas fechadas associamos a objetos. Observe as marcas do Bradesco, do Itaú e do InMetro, por exemplo.

O Círculo – O Ovulum Primitivo

O círculo é uma das figuras mais emblemáticas no estudo das formas. Simboliza
a semente, o início, o princípio gerador, o ovo, a origem primitiva. É a figura representativa do ventre, do nascimento, da gestação, da energia contida, concentrada. É uma forma feminina por excelência. Sugere rotação, propagação, vibração. São as rodas de tudo o que se move sobre a terra, o conceito de motor,
o cata-vento, os relógios, as bússolas, as hélices, os rodamoinhos, os discos etc. Movimento puro. É o globo planetário, a grandiosidade, o todo, o início e o fim, aquilo que tudo abarca, o poder, a semente que tudo gera.

Segundo estudos, o homem moderno relaciona-se de forma mais espontânea com as formas retas que com as formas curvas. Ao que parece, o arredondado é mais apreciado pelos sentidos que pela mente ou pelo lado racional. É uma forma que
se associa à emoção, ao contrário do quadrado. É a representação primitiva dos símbolos mais recorrentes em todas as culturas, como o Sol, a Lua ou mesmo
às estrelas.

Na nossa cultura, encontram-se associações mais ligadas ao mundo das máquinas, como engrenagens, polias, veículos e, portanto, a movimento. É quase impossível observar o círculo sem associar a movimento. Basta lembrarmos das marcas VW, Audi, Chevrolet e uma infinidade de outras. É um perfeito símbolo para tudo que coincide com não agressividade, organização mundial, grupal ou ritual primitivo, por exemplo. É a ausência de arestas. Em certo sentido é a forma que pode ser utilizada para se associar a conceitos como harmonia entre o todo e a parte, entre o externo e o interno, a compreensão do mundo, o domínio das forças, entre o corpo e o espírito etc. Não é de estranhar, portanto, o uso da forma circular como uma das mais preferidas por organizações de caráter mundial ou por religiões ou seitas mais antigas, como é o caso do símbolo antigo do Yin-Yang chinês.

Oval – Aerodinâmico e Tátil

As formas arredondadas agregam ricos significados de apelos à sensualidade. A forma oval é um perfeito símbolo para dinamismo e sensualidade. É provavelmente a forma da perfeição aerodinâmica. Vide os bólidos experimentais de alta velocidade ou os dirigíveis e aviões. É uma forma extremamente feminina, delicada, sem agressividade. É a forma da semente, da geração, do glamour, das gemas preciosas entalhadas para as jóias, dos retratos antigos, dos camafeus. É uma forma que pela sua ergonomia atribui-se um sentido tátil extremamente agradável, pressupondo associações sinestésicas de maciez ao toque e até de perfume.

Não é de estranhar, portanto, seu uso nos logotipos da Esso, Ford Motors Company, Fininvest, Azaléia, etc. Talvez daí uma parte da explicação para sua grande incidência de seu uso na posição diagonal, promovendo a formação de elipses numa grande quantidade de marcas na virada do século XX para o XXI, num provável desejo de traduzir conceitos como globalização, conectividade, agilidade, interatividade, mediação ou relacionamentos com clientes. A forma oval sugere aconchego, acomodação, prazer sensorial tátil, suavidade, deslocamento silencioso, volatilidade, fluidez, agilidade e até leveza. É uma forma extremamente humanizada.

Retângulo – O Monólito Desafiador

O retângulo vertical é o símbolo da presença masculina ou das forças externas, alheias ao nosso controle. É a própria configuração da figura humana, em síntese. É a configuração ou metáfora visual sintética de tudo o que é feito sobre a terra. É a forma associada a crescimento, tradição, força estacionária, estático, construção, elevação, monolítico (lembre-se do monólito negro do filme de Stanley Kubrick - 2001-Uma Odisséia no Espaço). É o crescimento, o anteparo, a torre ou tudo que se eleva a partir da terra. É um ícone da artificialidade, da arquitetura. São como colunas gregas, a sustentação, a firmeza. É o tronco sólido. É a torre Eiffel, o Big-Ben, o Empire-States, imóveis, marcantes, poderosos.

A horizontalidade está associada primitivamente ao mundo da ação humana que transcorre na superfície com seus deslocamentos. Neste sentido, as formas retangulares verticais sugerem elevação e certa estabilidade, enquanto as horizontais sugerem maior estabilidade e sentido de repouso, portanto, menos deslocamento ou, quando muito, deslocamento para a direita ou para a esquerda.

O retângulo horizontal pode ser compreendido como uma representação do próprio espaço da vivência humana ou do rastreamento ótico humano. Percebemos o que é natural como o que se desloca no mesmo campo de visão que o nosso. O que adquire verticalidade os nossos olhos tendem a interpretar como construídos e, portanto, não naturais. O retângulo horizontal é a representação da paisagem, da contemplação, do deleite visual, do olhar de um flaneur, o descanso, do repouso de toda criatura viva, da passividade de quem adormece ou falece. É o outdoor, o formato cinemascope, a barreira, os muros e muralhas. Pressupõe o próprio sentido da leitura e da escrita ocidental, a estrada, o percurso, o deslocamento.

Ao que tudo indica, nosso corpo foi criado para se dar melhor na observação das horizontalidades que das verticalidades. Nos adaptamos melhor ao “não” (gesto da cabeça em sentido de negação) que ao sim. A força muscular despendida para o primeiro é menor.

Como sempre nos movimentamos com maior facilidade por superfícies horizontais. Nossa ótica formatou-se predominantemente para a observação lateral. O que vem de cima nos surpreende: a chuva, os raios, as precipitações naturais. Somos adaptados a poder enfrentar o que nos vem das laterais e nos sentimos quase que indefesos diante das manifestações verticais ou que vem descrevendo em sua trajetória uma linha vertical. Nesse sentido, as linhas verticais oferecem significados de agressividade.

Podemos verificar atualmente (este artigo foi escrito em 2005) a tendência dos monitores de tv para o formato do cinema. A horizontalidade é o sentido da amplidão, da dimensão concreta, algo controlável. Em oposição, tudo que se eleva da terra ou cai sobre ela seriam fenômenos adversos, alheios, como a chuva, as árvores, os raios. Nesse sentido a horizontalidade nos parece mais agradável que a verticalidade. Conseguimos, por experiências, provar que temos melhor dimensão das proporções horizontais que verticais. A extensão de um muro transformada em edifício nos engana fazendo supor que o edifício é bem maior. O retângulo vertical atua como forma forte e impositiva, força ativa sobre um plano ou uma horizontalidade.

O Triângulo – Decifra-me ou Te Devoro

Esta é a forma mais revestida de mistérios e de significados ocultos. No plano ou na sua projeção tridimensional (pirâmide), a forma triangular remete inevitavelmente a indicatividade: é como uma seta apontando para cima, para o céu, o firmamento infinito. É a primitiva montanha e seus cumes, a ponta da seta, o dente afiado da fera, a lasca aguda do homem ancestral, a faca, o bico da ave, as pirâmides.

O triângulo místico da trindade católica ou da maçonaria. Pode significar imobilidade, monumentalidade. É uma forma híbrida e hermafrodita por excelência. É uma transição, uma passagem de um estágio para outro.

Representa a sublimação, o desprendimento da matéria, a ascensão, a religiosidade e a mística. Pode sugerir advertência pela presença forte das três arestas que sinalizam o perigo ao toque ou a prontidão para a defesa. É a forma
que conceitua o extra-corpóreo, o pós-humano, o sublime, a advertência ou o inusitado, o inesperado. O triângulo convida à uma convergência, a uma concentração para um dos pontos.

Sabemos que o rastreamento ótico procura inicialmente as formas horizontais e verticais. E tudo aquilo que se opõe a isso tende a ganhar mais tempo para assimilação. Portanto, atraem uma concentração de atenção, consomem mais energia.

O triângulo, por sintetizar a ponta de uma lança é perfeito para sugerir indicação de direção, de sentido. Com sua ponta para cima é estabilidade, repouso. Para baixo, com sua base para cima é instabilidade, desconforto e sugere advertência, situação incômoda. Voltado com as pontas para as laterais pressupõe indicação de direção.

Praticamente todos os brasões medievais possuíam estruturalmente formas triangulares, que por sua vez remetiam a escudos protetores. Observe o símbolo do Banco Real-Amro à luz desses conceitos e poderá chegar a algumas conclusões interessantes.

Elcio Sartori é professor universitário há mais de 20 anos, designer, publicitário, produtor gráfico, fotógrafo, articulista e empresário. Ministra as disciplinas de Computação Gráfica, Produção Gráfica, Projeto e Direção de Arte & Criação no Centro Universitário Belas Artes e conclui mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Grupo Anaya

Agência com 9 anos de atuação nas mais diversas áreas da criação.